Como a indústria pornográfica impulsionou avanços tecnológicos ao longo dos anos

A palavra "pornografia" vem do grego pornos (prostituição) e graphos (escrita, registro, desenho).


Desde o início da história da arte, sexo tem sido um tema recorrente. Artistas rupestres pré-históricos já registravam suas partes íntimas nas paredes das cavernas que habitavam. Algumas representações conhecidas de casais fazendo sexo datam de 11 mil anos.


Há cerca de 4 mil anos, um artista da Mesopotâmia criou uma placa de terracota de um homem e uma mulher tendo relação sexual enquanto ela bebe cerveja por meio de um canudo. Alguns milênios depois, os “Moche”, que habitaram o norte do território onde hoje fica o Peru, desenharam atos sexuais em materiais de cerâmica. O Kama Sutra, da Índia, é do mesmo período e provavelmente, seja o trabalho sobe amor e sexo mais celebrado.


Mas a grande força motora, que impulsionou a divulgação de material pornográfico, foi a fotografia.


Estúdios pioneiros em Paris comerciavam os chamados "estudos de arte", um eufemismo para os estúdios pornográficos. E havia clientes estavam dispostos a pagar o suficiente para sustentar a tecnologia: por um tempo, custava mais comprar uma fotografia erótica do que pagar uma prostituta.


Novos avanços tecnológicos surgiram, como a imagem em movimento, mas a indústria cinematográfica não foi tão impulsionada pela pornografia, por razões óbvias. Filmes eram caros, e o grande público tinha de pagar os custos. Além do que, assistir a um filme nessa época implicava em exibições públicas. E, embora muita gente pagasse para ver fotos pornográficas em casa, poucas pessoas se sentiam confortáveis o suficiente vendo filmes adultos em um cinema público.


Uma solução veio nos anos 1960 com as "caixas de perspectiva" - caixas onde se colocava moedas para que os filmes fossem exibidos. Uma caixa rendia milhares de dólares em uma semana. O avanço em relação à privacidade veio com a invenção do vídeo cassete (VCR). Em seu livro The Erotic Engine, o escritor Patchen Barss argumenta que o VCR fez com que a pornografia amadurecesse, ganhando uma "casa própria" tecnológica.


No começo, a venda dessas fitas era muito difícil: o preço era elevado e eram disponibilizadas em apenas dois formatos, que eram incompatíveis entre si, portanto eram necessários equipamentos específicos para cada tipo de gravação. Apenas pessoas que queriam muito ver filmes adultos em casa se arriscavam a investir dinheiro em um equipamento que ficaria obsoleto muito rapidamente.


Em poucos anos, a tecnologia ficou mais acessível e, nos anos 70, a maior parte das fitas vendidas eram de filmes pornográficos.


Porém, a grande evolução tecnológica para a indústria pornográfica estava para chegar: a internet.


Alguns de vocês devem se lembrar do acesso à rede por meio da internet discada. Isso significava levar horas, ou dias, para fazer o download de um arquivo que hoje pode ser baixado em poucos segundos. E o que você acha que motivaria alguém a se esforçar tanto para melhorar essa conexão? Isso, você adivinhou, a distribuição de material erótico ou obsceno.


Um estudo de 1990 que analisou os grupos de discussão da Usenet, onde usuários postavam mensagens de texto em fóruns, indica que cinco de cada seis imagens compartilhadas eram pornográficas. Alguns anos depois, pesquisas em salas de bate-papo indicaram uma proporção similar de atividade dedicada ao sexo.


O apetite pela pornografia ajudou a impulsionar a demanda por conexões mais rápidas, melhores, por modems e pela banda larga. Também estimulou a inovação em outras áreas. Distribuidores de pornô online foram pioneiros em tecnologias digitais, como a compressão de arquivos de vídeo e sistemas de pagamento amigáveis a usuários.


Hoje em dia, a internet está dificultando a vida de produtores de pornografia profissionais. Assim como é difícil vender uma assinatura de jornal quando tantas coisas estão disponíveis de graça online, é difícil vender pornografia quando existem diversos sites distribuindo conteúdo gratuitamente.


Grande parte dessa pornografia gratuita é pirateada, e é muito difícil conseguir a remoção de conteúdo ilegal na rede. Um grande player do momento é uma empresa chamada Mindgeek, que é dona do Pornhub, o site popular mundialmente, e de sete outros sites que estão nos 10 primeiros do ranking pornográfico.


Sua dominância no mercado é um problema, de acordo com a professora Marina Adshade, da Vancouver School of Economics, autora de Dollars and Sex: How Economics Influences Sex and Love (Dólares e Sexo: Como a Economia influencia o Sexo e o Amor, em tradução livre). "Ter um só comprador colocou pressão nos produtores para que eles diminuíssem o preço de seus filmes. Isso não só atrapalhou o lucro dos produtores de pornô, mas mudou radicalmente o trabalho de atores, que agora estão sob grande pressão para representar papéis que eles teriam recusado no passado - e por um preço mais baixo.", ela diz.


A melhor maneira de fazer dinheiro talvez seja investindo em tecnologias que têm espaço para a pornografia e que a pornografia, por sua vez, também permita o desenvolvimento dessas tecnologias. No passado, isso significava que estúdios de fotos parisienses ou empresas produzindo vídeo cassetes ou modems de alta velocidade; hoje, algoritmos que sugerem conteúdo e que mantêm os olhos dos espectadores grudados na tela.


Muita gente fala que a realidade virtual é o futuro dos jogos, porém, há quem diga que é a no mundo da pornografia que essa tecnologia deve se estabelecer de fato. Há várias iniciativas do gênero, e também não é difícil imaginar uma versão futurista daqueles cinemas eróticos agora equipados com headsets de realidade virtual ou mesmo uma coisa mais caseira, com camgirls se exibindo virtualmente e de maneira bem imersiva diante dos seus olhos.


Em 2001, havia cerca de 70.000 sites para adultos. Hoje, 18 anos depois, existem mais de 800 milhões de sites pornográficos em todo o mundo. O papel do sexo como propulsor de desenvolvimento tecnológico ainda não terminou.



Matéria baseada no texto de Tim Harford, escritor da coluna "Untercover Economist", do Financial Times. Esse texto faz parte da série "50 Things That Made the Modern Economy", transmitida pela BBC World Service.

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