Morte a bordo

Se você viaja de avião com frequência, é bem provável que já tenha dividido a aeronave com um cadáver (ou partes dele) até seu destino. Voos domésticos, afinal, são uma maneira comum de fazer o translado de corpos, cinzas, urnas funerárias e ossadas por longas distâncias.


Uma única companhia brasileira transportou, em média, 104 esquifes (nome técnico de cargas funerárias como caixões ou ossadas) por mês em 2018. Isso quer dizer que há pelo menos três aviões partindo de aeroportos por todo Brasil com restos mortais na bagagem diariamente. Em maio de 2019, cerca de 2,4 mil aviões comuns decolaram por dia em aeroportos de todo o País.


Corpos são objetos caros de transportar. Suponhamos que uma pessoa tenha morrido em São Paulo, mas precise ser sepultada no Rio. Fretar um avião particular que faça esse trajeto custa, no mínimo, R$ 80 mil. Para enviar um caixão do Aeroporto de Guarulhos até o do Galeão, na capital carioca, o preço médio é de R$ 4 mil – o valor final vai variar de acordo com o peso da pessoa falecida.


Um terço desse dinheiro fica com as empresas aéreas. O restante vai para as companhias funerárias, que assumem o trabalho de buscar o corpo, prepará-lo da forma adequada e conduzi-lo ao terminal de cargas – onde é acomodado ao lado das bagagens comuns.

O transporte de restos mortais não é como um serviço de frete qualquer – tem regras próprias. “A exigência no caso das aeronaves é rigorosa”, diz Paulo Coelho, presidente da ABT (Associação Brasileira de Tanatopraxia).


Chama-se “tanatopraxia” a preparação de um corpo sem vida para o transporte, velório e sepultamento. A técnica exigida nos voos é o embalsamamento. Replicada desde a civilização egípcia, é nada menos que a troca de fluidos naturais do corpo por substâncias que auxiliam na preservação, como o formol diluído em água. O corpo não desidrata, e o processo de putrefação desacelera. Fazendo a preparação correta, garante-se que o cadáver permaneça intacto por 15 dias.


“Após o óbito, modificações de aparência e odor aparecem em menos de oito horas”, diz Coelho. “Se não houvesse a conservação do corpo, poderia haver extravasamento de fluidos corpóreos, gases e exalação de odores, contaminando todo o ambiente.” Ainda assim, o caixão que voa de avião precisa estar envolto em uma urna de proteção específica.


Uma urna funerária que não foi vedada corretamente trouxe muita dor de cabeça aos passageiros em 2011. Restos mortais e formol contaminaram 25 bagagens de um voo vindo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. O formol pode provocar irritações e queimaduras quando entra em contato com a pele – o que obrigou a companhia a desinfectar as cargas antes de devolvê-las aos usuários.


Desde 2011, quando a lei para transporte de cargas funerárias mudou pela última vez, a Anvisa, órgão brasileiro de vigilância sanitária, não controla a presença de cadáveres em aviões. Segundo o órgão, só são feitas inspeções “em casos de emergência em saúde pública ou situações que possam significar algum risco à saúde da população”. Pessoas que faleceram por causa de doenças contagiosas ou contaminados por radioatividade, por exemplo, não podem voar.


Quando a morte ocorre durante o voo, a operação se torna um pouco mais complexa.

Apesar de ser uma acontecimento raro, infelizmente algumas pessoas que embarcam vivas e eventualmente morrem durante viagens de avião. Um estudo de 2013, publicado no New England Journal of Medicine, analisou 12 mil emergências médicas aéreas em voos americanos, e só houve mortes de passageiros em 36 desses casos – ou seja, uma proporção de 0,3% da amostra.


Quando esses incidentes acontecem, companhias de aviação podem acabar recorrendo a soluções inusitadas. A British Airlines, por exemplo, foi acusada em 2007 de utilizar assentos de primeira classe para armazenar cadáveres. Aviões da Singapore Airlines contam com um compartimento discreto próximo às saídas de emergência, usado para o mesmo fim.


Segundo a IATA (Agência Internacional de Transportes Aéreos), o procedimento correto é acomodar o falecido sentado ao lado de uma poltrona desocupada. Caso o voo esteja lotado, a orientação é manter a pessoa no seu próprio assento, com um cobertor sobre seu corpo – desde que não obstrua corredores e saídas de emergência. Por uma questão de respeito à pessoa que morreu, ela também não pode ser levada para algum banheiro, já que eventualmente acabaria no chão.


Viagens de avião, quando muito extensas, costumam durar 12, 15 horas, mas, e se o passageiro falecer num navio de cruzeiro, que pode ficar vários dias longe da costa?

Cruzeiros são verdadeiras cidades flutuantes, carregam toneladas de suprimentos, alguns dessalinizam a própria água para consumo, e muitos possuem até celas de detenção provisória, em meio às estruturas de lazer e acomodações dos passageiros. Há também um necrotério, com câmaras frias prontas para guardar corpos de passageiros que falecem no meio do passeio.


Não existe um levantamento brasileiro – nem mundial – de quantas mortes ocorrem em cruzeiros. E as companhias ou associações do setor também preferem não falar sobre isso. “Para eles, não é bom negócio discutir o fato de que a maioria – se não todos – os navios contam com uma câmara mortuária (que, às vezes, fica lotada)”, diz Ross Klein, professor da Memorial Newfoundland University, no Canadá, e especialista na indústria de cruzeiros. “Isso não se encaixa na imagem de diversão que eles desejam associada às férias que estão vendendo.”


Existem sites que tentam manter uma lista atualizada do número de mortes por todo o mundo, compilando notícias de casos desse tipo. A estimativa mais confiável, no entanto, vem do Cruise Ship Critic, guia do Trip Advisor, que estima três mortes por semana em cruzeiros do mundo todo.


Viagens de cruzeiro costumam ser, geralmente, um programa para pessoas mais velhas. Dados do Brasil mostram que quase um terço dos passageiros de cruzeiro (32,1%) tem mais de 55 anos. As viagens de cruzeiro nacionais costumam durar em média 5,9 dias.


Nenhum passageiro, além dos familiares da vítima, fica sabendo do óbito. Assim que a equipe médica do navio comprova a morte, o corpo segue para um compartimento refrigerado. Essa cabine mortuária fica em uma parte da embarcação restrita a funcionários, e é esvaziada assim que o navio chega ao próximo porto.


Não há como fazer escalas extras, alterar a rota original, ou esperar pela parada mais conveniente. Se o enterro vai acontecer no Rio de Janeiro, mas a parada seguinte do navio é em Buenos Aires, o corpo desce e faz o percurso de avião – mesmo que o destino do cruzeiro seja o próprio Rio.


Apesar de toda a estrutura preparada para simplificar o processo, uma morte em alto-mar pode ser traumática, também, para o bolso dos parentes do falecido. Todas as despesas ficam por conta da família, que precisa se encarregar da papelada referente ao óbito e de todos os custos do transporte do corpo para o local do enterro – o último destino desse passageiro.

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